concerto NEXT

De início, a falta de percussão e tambores causa estranheza aos ouvidos das pessoas que estão ali na Praça das Artes, Cultura e Memória, no Pelourinho, para assistir ao concerto do NEXT.

A banda faz um som auto-denominado afro eletro acústico.

É África, mas é contemporâneo. Onde estão as referências ao tribal, ao exótico, ao tradicional? Foram engolidas, digeridas, repaginadas, reescritas. As pessoas primeiro estranham, algumas perguntam, num primeiro momento desconcentram-se, mas depois ouvem tudo, hipnotizadas.

Dois baixos – dos músicos Ricardo Manuel e Marita Silva – substituem a percussão tradicional. Uma bateria elétrica tocada por Fernando Alvim acompanha, mas não dita o ritmo da música. A guitarra de Divaldo Cardoso e o violão de Ivo Mingas completam a banda. Os músicos são acompanhados pela voz doce do vocalista Nuno Mingas.

Tudo é tocado e cantado com suavidade, delicadeza, sem excessos. Assim como na exposição inaugurada há pouco, menos é mais. E é exatamente isso que surpreende e encanta. O som do NEXT é apaziguador, inquietante, emocionante, sincero, carregado de referências e emoções de muitos tempos e sítios. As projeções de imagens de Luanda contemporânea carregam o ambiente de ainda mais urbanidade.

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abertura exposição

As fotografias, serigrafias e vídeos de Claudia Veiga, Kiluanji, Yonamine e Ihosvanny, os quatro artistas expostos no projeto Luanda | Smooth and Rave 1 levaram as ideias que o sociólogo José Octávio Van-Dúnem apresentou no campo do pensamento ao universo das sensações.

As obras apresentam uma Luanda globalizada, em transformação, influenciando e sendo influenciada por outros espaços. A sala da conferência logo ficou escura transformou-se no espaço dedicao aos vídeos. As outras obras ficaram no salão principal, ao lado. Muita gente circulou pela galeria.

Em seguida, coquetel com trilha sonora composta por afrobeats e sembas. Era o aquecimento para o show do Next, que aconteceria na sequência.

conferência “Luanda, uma perspectiva sociológica e cultural”

O projeto Luanda | Smooth and Rave 1 foi oficialmente inaugurado com uma reflexão sobre Luanda contemporânea. Por que essa cidade de seis milhões de habitantes, que acolheu tantas pessoas de tantos cantos, se desorganizou, se construiu, avançou e nunca parou de crescer foi batizada de suave e frenética? O que ela representa, simboliza, comunica? Com quem ela se relaciona, a quem pertence, quais são os seus desafios e peculiaridades?

O sociólogo e diretor da Faculdade de Direito Agostinho Neto, José Octávio Van-Dúnem, veio diretamente de Londres para apresentar Luanda dos dias de hoje aos brasileiros. Apresentar é um bom verbo, pois, no Brasil, ainda sabe-se muito pouco sobre o que se passa do outro lado do Atlântico. Os olhos quase imóveis e aquela atenção toda que a plateia prestava deixou bem claro que aquela conversa estava a provocar reflexões profundas. E era mesmo esse o objetivo, afinal.

Fernando Alvim, curador do projeto, e Daniel Rangel, responsável pela Diretoria de Museus do IPAC, também participaram da conferência.

passagem de som NEXT

Mais grave. Tira só o agudo do baixo. A guitarra não dá para escutar. O microfone dois está com eco. Não, não, ainda não é isso. Enquanto o sol vai caindo e pintando as paredes dos casarões históricos do Pelourinho com cores de fim de tarde, os músicos da banda NEXT fazem a passagem do som na Praça das Artes, Cultura e Memória, onde eles se apresentarão às 21h.

A praça das Artes, Cultura e Memória é aconchegante, não muito grande, protegida. O acesso a ela é por uma escadaria que vem do alto ou por outra que vem de baixo. É rodeada por alguns coqueiros e um enorme pé de manga carregado de frutas. O chão de paralelepípedos vai ganhando banquinhos de madeira geometricamente dispostos em frente ao palco. Os técnicos do palco ajustam as últimas luzes, as posições das caixas e dos instrumentos no palco. Uma baqueta que se quebra. Ainda bem que é o Pelourinho, palco de batucadas praticamente ininterruptas e lojas de músicas pelas ladeiras. Problema resolvido.

Antes do sol cair, o vai-e-vem cessa. Pronto. Está tudo certo.

entorno

Sexta-feira, 20 de novembro, dia da consciência negra no Brasil. O Pelourinho, um dos sítios mais famosos de Salvador, a cidade mais negra do Brasil, está a ser palco de manifestações culturais ligadas à cultura africana e afrobrasileira. O presidente Lula, inclusive, passou por lá e declarou que, naquele dia, Salvador é a capital do Brasil.

Pelas ladeiras de paralelepípedos há festas, trios elétricos, capoeira, batuques, acarajés, baianas com suas saias rodantes e muitos turistas. É dia de festa.

No centro cultural Solar Ferrão, onde será inaugurada a exposição Luanda | Smooth and Rave 1 e a praça das Artes Cultura e Memória, onde a banda NEXT fará o concerto, os preparativos estão caminhando.

Nos dois endereços, menos é mais. Na galeria, são poucas as obras expostas, o que lhes dá ainda mais força. Há espaços livres para andar, refletir, olhar. Na praça, as guitarras, baixos, violão, bateria elétrica e a voz de Nuno Mingas tornam a praça ainda mais acolhedora ambiente acolhedora.

Salvador também é suave e frenética.

ensaios NEXT

O NEXT fez dois aquecimentos num estúdio da cidade. Os músicos definiram o playlist, tocaram, ambientaram-se. Mas, principalmente, decidiram que é em Salvador, e não em São Paulo, que o primeiro CD da banda será gravado, na sequência do concerto. Eles querem estar onde sentem-se mais conectados. A ligação estabelecida com Salvador foi quase imediata e totalmente natural.

O NEXT existe há cerca de um ano. A apresentação inaugural foi no teatro Chá de Caxinde, em Luanda. Desde então, a banda já se apresentou em outros sítios da capital angolana, em Benguela, no Lobito, no Namibe, Lisboa e Bordeaux e, agora, em Salvador.

montagem

As obras da exposição Luanda | Smooth and Rave 1 vieram de São Paulo, onde haviam ficado expostas na galeria SOSO arte contemporânea africana. A montagem foi feita na antevéspera. Tudo ficou no seu devido lugar, inclusive os espaços vazios, necessários para a livre circulação de pessoas e pensamentos.